O Annus Horribilis do Benfica

SL Benfica 2017

Tragédias e actos tresloucados de terrorismo são marcas de um ano de que acabámos de nos despedir. Desportivamente, 2017 ficará conhecido como o annus horribilis do Benfica. Olho para a fotografia de Luís Filipe Vieira e dou comigo a pensar: o Rei vai nu.

É a imagem de um reino que se desmorona a que fica: cai um e-mail aqui, salta uma cartilha acolá, demite-se um sujeito ali, surge uma investigação judicial aonde menos se espera. No meio desta confusão toda há quem tente tapar a situação numa ponta e ela destapa-se noutra. É claramente o fim de um ciclo.

Chafurdar na Lama

Bruno Costa Carvalho – pessoa que respeito – foi candidato à presidência do Benfica. Eis o que escreveu na sua página do Facebook em 30 de Dezembro, penúltimo dia de 2017:

“Estes são provavelmente os dias mais negros da história do Benfica. Vale e Azevedo podia não pagar contas, mas nunca foi envolvido em nada disto.”

Uma coisa vos garanto. Com um Presidente de outra estirpe, de outro nível, rodeado de outro tipo de gente, poder-se-ia ganhar mais, ter as contas muito melhores e não estarmos a chafurdar na lama.

Sr. Luís Filipe Vieira resolva, de imediato, esta situação. O seu tempo está a esgotar-se”.

O Princípio da Megalomania

«Um presidente de outra estirpe». Provavelmente Bruno Costa Carvalho colocou o dedo na ferida. Recordo imagens de algumas visitas de Luís Filipe Vieira a casas do Benfica, por exemplo, e sempre me pareceu que ele se deslocava como se pensasse ser um rei ou um chefe de Estado.

Era uma coisa do tipo: «Eu, Vieira, o centro das atenções!». Essa megalomania estendeu-se aos seus próximos. Pedro Guerra que semanalmente enterra a imagem do clube – é António Simões, velha glória dos encarnados, quem o afirma – diz ser um comentador como fora Marcelo Rebelo de Sousa.

Não sei se o homem que um dia escreveu que Luís Filipe Vieira tinha sido condenado judicialmente a prisão por roubo sonha vir a ser Presidente da República. Mas fica sempre a sensação de que o delírio – bêbado dos «êxitos» construídos a partir de uma realidade que não terá na seriedade o seu principal atributo –  se apossou dos dirigentes do clube da Luz.

A Exportação do Modelo

Já não falo da universidade e do colégio que o Benfica anunciou como projectos, esse estado dentro do Estado virtual que julgam ser real.

Lembro-me apenas do anúncio feito pelo administrador executivo da SAD benfiquista Domingos Soares de Oliveira de que o clube estava interessado em exportar o modelo de gestão para Inglaterra. Se o dissesse hoje provocaria por certo enormes gargalhadas entre os clubes ingleses.

Os Homens Certos nos Lugares Certos

Quando foi eleito Luís Filipe Vieira afirmou que ter os homens certos nos lugares certos era mais importante do que contratar bons jogadores. Durante anos e anos foi construindo a sua teia, ganhando uns campeonatos, solidificando a sua imagem de rei da bicharada.

Foi essa teia que começou a ruir em 2017. Por coincidência o Benfica foi a pior equipa das 80 que começaram as competições europeias, deixou a Taça de Portugal eliminado pelo Rio Ave e até a Taça de Liga se revelou uma miragem confirmada pelo Vitória de Setúbal .

O «delírio» de Luís Filipe Vieira chegou ao fim. Meses de denúncias de situações pouco claras marcaram o destino de uma liderança que ora se invoca ser de um clube, ora se afirma ser de uma marca.

Enquanto o advogado do Benfica João Correia admitia em entrevista televisiva que alguns dos e-mails denunciados podem dar ideia de «tráfico de influências» o presidente Vieira fala de uma «cabala» para impedir a conquista do pentacampeonato. Nada mais falso. Essa conquista não terá lugar pela mais elementar das razões: a equipa de que é o responsável máximo não joga nada. E está apenas a três pontos do primeiro lugar por causas de todos conhecidas

O Fim Do Império – SL Benfica 2017

A divulgação de e-mails trocados entre e com responsáveis benfiquistas deu a dimensão do mundo paralelo que Luís Flipe Vieira foi tecendo. Pôs a nu essa realidade oculta. Só isso é mais importante do que quaisquer punições judiciais e desportivas que possam ocorrer.

Mas dá a ideia que a cúpula do clube ainda não se apercebeu de que tudo (ou quase) mudou. Só assim se entendem duas «sentenças» decretadas recentemente. Uma diz respeito ameaças de procedimento criminal a quem fizer o download de e-mails do Benfica que são do domínio público.

A outra, inclassificável, é de «ordenar» a empresas que abram processos disciplinares a funcionários que tenham feito esses downloads. Já não se trata de clube nem de marca, mas sim de um Big Brother que julga controlar tudo e todos.

Em dada altura da sua vida Luís Filipe Vieira deve ter-se considerado um Luís XIV: «L’ état c’est moi!» (O Estado sou eu).

Parafraseando Saddam Hussein arrisca-se a ficar na história como «a mãe» de todas as derrotas.

Crónica da autoria de Jorge Massada.

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