Após duas exibições menos bem conseguidas que se traduziram numa derrota contra um muito forte e talentoso Besiktas, e uma vitória suada, numa exibição atipicamente fraca quando comparada com o fortíssimo arranque de temporada, numa sempre difícil deslocação ao Estádio dos Arcos, eis que finalmente o orgulho da cidade invicta dá aos seus adeptos mais uma exibição de encher o olho e de fazer cantar em plenos pulmões o nome dos seus heróis.

O cenário e os actores

Sérgio Conceição montou a equipa no 4-4-2 com que começou a época e em que tem jogado na maioria dos jogos (sendo que no momento ofensivo mais se assemelha a um 4-2-4) optando por utilizar o 11 habitual com a excepção de Oliver, que viu do banco o seu lugar no 11 a ser ocupado por Hector Herrera. Já o Portimonense, equipa visitante, entrou em jogo com jogadores que têm deixado a sua marca, mesmo com o duro início de época a que foram sujeitos, como o nipónico Nakajima, o tecnicista Paulinho e Fabrício.

A história do jogo foi praticamente a mesma ao longo dos 90 minutos com apenas alguns “outliers” em curtos espaços de tempo. Os dragões pressionaram os algarvios desde o primeiro minuto e assumiram a posse de bola assim como a iniciativa do jogo. O plano de jogo por sua vez passava por fazer chegar a bola rapidamente aos corredores, explorando-os em detrimento do corredor central, e fazendo uso do virtuosismo de Corona e, principalmente, de Brahimi para assumir o papel de criativos e garantir o sucesso do processo ofensivo. Já o plano da equipa do Portimonense passava por garantir a solidez defensiva e tentar criar o caos na equipa de linhas adiantadas do Porto com transições rápidas fazendo uso da velocidade e óptimo recorte técnico dos seus jogadores mais ofensivos.

Nas Asas dos Alas

As melhores oportunidades de golo pertenceram sempre à equipa da casa, que teve três muito boas oportunidades de abrir o marcador ainda antes do golo, que apareceu aos 20 minutos por intermédio de Marcano na sequência de pontapé de canto. O golo provocou mossa na organização defensiva do Portimonense, que acusou, e de que maneira o golo, e que permitiu ao Porto marcar mais dois golos nos 6 minutos que se seguiram, um pelo pé de Aboubakar e o terceiro por Marega (que volta a marcar e a fazer, para gáudio de todos, mais uma excelente exibição), ambos com o carimbo de qualidade de Corona em duas óptimas jogadas individuais que culminaram em assistências para golo, dando brilho a uma exibição que até aos golos estava a ser bastante discreta por parte do extremo mexicano.

A equipa da casa relaxou e permitiu ao Portimonense crescer no jogo e criar alguns problemas à defesa azul e branca insistindo em jogadas de um para um, contando na velocidade e técnica dos seus jogadores, e aos 36 minutos, numa jogada de esforço e finess de Nakajima, abanando assim pela primeira vez as redes da baliza defendida pelos azuis e brancos no dragão na presente época.

Na segunda parte a equipa de Sérgio Conceição entrou com força redobrada, o que culminou em mais dois golos, o segundo dos quais uma deliciosa jogada de entendimento entre 3 jogadores, para a equipa da casa, ambos de Brahimi, coroando a sua extraordinária exibição e confirmando o seu estatuto de melhor em campo (e provavelmente o actual melhor jogador da primeira liga portuguesa a par de Bruno Fernandes) depois duma exibição em que esteve presente em praticamente todos os lances de perigo dos dragões.

O Portimonense ainda voltou a reduzir a vantagem com um lance de bola parada, no qual Ruben Fernandes acabou por fixar o resultado final em 5-2. Nota ainda para a entrada de Oliver após ter deixado de ser opção desde a segunda parte do jogo contra o Besiktas, a estreia de Diego Reyes no campeonato (na posição de trinco!) e ainda a entrada de Soares que ainda aparenta não estar na forma física ideal após a lesão que o afectou na segunda jornada do campeonato.

Língua igual, tangos diferentes

As conclusões que se podem tirar do jogo da 7ª jornada são bem simples e vêm em continuação do que pudemos vir a concluir nos dois jogos anteriores: a primeira é que o Futebol Clube do Porto tem um plantel com muito pouca profundidade. O meio campo sem Oliver faz da equipa uma equipa diferente, a circulação da bola no centro do terreno simplesmente não existe, a ocupação dos espaços sem bola é feita de forma lenta e o jogo é pensado, de uma forma geral muito mais devagar e de uma maneira muito menos clara.

Herrera esteve longe de fazer um jogo mau, fez até uma exibição seguríssima com vários apontamentos muito bons, mas simplesmente não tem nem o recorte técnico nem a inteligência para coordenar as acções do meio campo e essa diferença qualitativa, infelizmente, não consegue ser colmatada com o esforço que o mexicano investe no jogo. Já Danilo simplesmente ainda não se adaptou ao sistema de dois jogadores no miolo que Sérgio implantou na equipa.

Este sistema exige que Danilo seja mais proactivo no momento ofensivo e com a bola nos pés e mais uma vez, quando obrigado a pensar e executar rápido em zonas avançadas no terreno, o português tende a decidir mal e não raras vezes de forma bastante atabalhoada. A diferença no jogo central da equipa quando entra Oliver em campo é da noite para o dia, e é assustador pensar que no caso de Oliver se lesionar nós não teremos um substituto que faça algo remotamente semelhante ao que o “miúdo” espanhol traz ao jogo.

A estrela para a terra prometida

O que nos leva à segunda conclusão deste jogo: Sérgio é um treinador de uma inteligência extraordinária e que não só assume os seus erros como aprende com eles e adapta-se para os corrigir. No jogo contra o Besiktas a equipa ressentiu-se, numa primeira fase, pela inferioridade numérica no meio campo e, numa segunda fase, e mais grave na minha opinião, pela falta de Oliver na segunda parte do encontro. Essa falta fez-se notar também no jogo contra o Rio Ave que foi um jogo bem mais equilibrado e descontrolado por parte dos dragões do que o resultado dava a entender. Sérgio Conceição entende isso e, neste jogo contra o Portimonense, faz pequenos mas cruciais ajustes.

Em primeiro lugar dá ordens ao meio campo para, mal tenham a posse de bola, procurarem por a bola nas alas para que os extremos possam explora-las quer pela qualidade individual quer pelas dobras dos laterais (ambos rápidos e com facilidade em chegar a zonas mais avançadas do terreno). Em segundo lugar dá ainda mais liberdade a Brahimi no aspecto táctico do jogo, fazendo do Argelino um autêntico vagabundo em campo, que aparece em zonas recuadas para recuperar bolas e  entra regularmente no corredor central para fazer o papel de terceiro médio (o mais ofensivo) deixando o corredor esquerdo entregue a Alex Teles.

Os resultados estão à vista, o Futebol Clube do Porto fez, na sua generalidade, uma exibição de gala, e com a entra de Oliver viu-se um dragão totalmente diferente nos últimos 30 minutos da segunda parte do que aquele que esteve presente nos primeiros 60 minutos, mas sem nunca perder a sua identidade nem a qualidade do seu futebol. Sérgio Conceição consegue assim mais uma proeza: depois de ter montado uma equipa, sem receber reforços, utilizando e rentabilizando jogadores que não eram activos do clube na vertente desportiva, consegue agora, através de alterações tácticas, contornar as limitações técnicas e tácticas dos seus jogadores e fazendo-os jogar usando os seus pontos fortes o melhor possível, criando, com a mudança de apenas um jogador, duas equipas que jogam de forma manifestamente diferente mas igualmente eficaz, alargando assim, ainda mais, o seu leque de opções, que acharíamos curto por força dos números do plantel.

Concluo apenas dizendo que sei que o verdadeiro teste começa agora, com a deslocação ao Mónaco e o jogo contra o Sporting, e ainda falta muito jogo jogar até ao fim do campeonato, mas acho que poderei falar por todos os portistas quando digo que, pela primeira vez desde à quatro anos temos treinador com futebol e talvez até com aquela pequena estrela de campeão.

Um bem-haja, Sérgio!

[Total: 5    Average: 5/5]